sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Atlético Rio Negro Clube – 100 anos...

A Manaus que viu nascer o Atlético Rio Negro Clube era uma cidade em pleno declínio econômico por conta do fim do Ciclo da Borracha. A “Paris dos Trópicos” vivia dias difíceis, mas não suficientes para deter o entusiasmo de 11 jovens idealistas em fundar um clube de futebol. “Eram jovens estudantes universitários, filhos de barões que resolveram criar um time de futebol. Eram jovens de famílias tradicionais da cidade”, descreve o historiador Francisco Carlos Bittencourt.
A. Rio Negro Clube - AM
A. Rio Negro Clube – AM
O maior entusiasta da turma? O jovem Schinda Uchôa, à época com apenas 16 anos. Ele se juntou aos amigos Edgard Garcia Lobão, Raymundo Vieira, França Marinho, Leopoldo Neves, Basílio Falcão, Paulo Nascimento, João Falcão, Ascendino Bastos, Afonso Nogueira e o não menos importante Manoel Afonso do Nascimento, o Carranza, que ofereceu a própria casa para ser a primeira sede do clube, localizada à época na Rua Henrique Martins.
A eleição, aliás, se deu na própria casa de Carranza. Por dez votos a um batizaram a nova entidade como Atlético Rio Negro Clube, uma homenagem ao rio que banha a capital amazonense – e porque todos queriam um nome que fosse bem bairrista.
Presidente
No mesmo dia, Edgard Garcia Lobão foi eleito e eternizado como o primeiro presidente do clube. E, para celebrar a fundação, um gesto que se tornaria um dos maiores símbolos do jeito rionegrino de ser: um brinde com vinho do Porto, o famoso ritual que ficou conhecido como “Porto de Honra”, usado até os dias de hoje para celebrar o aniversário do “mais querido da cidade”.

O ‘manto’ da discórdia
Pouca gente sabe, mas nem sempre o Rio Negro foi o time “Barriga-Preta” como é conhecido nos dias de hoje. O primeiro uniforme do clube, escolhido ainda na reunião de fundação, tinha calção e camisa branca com o colarinho preto. Este uniforme, porém, teve que ser modificado, já que se parecia muito com o então “co-irmão” Nacional, que se tornaria num futuro não muito distante o seu maior rival .
No dia 15 de janeiro de 1914 veio a mudança do uniforme. Por sugestão de Schinda Uchôa, a camisa passou a ser branca com listras pretas verticais, com calção preto. Na verdade, Schinda “copiou” o uniforme de um certo Botafogo que conheceu quando visitou a Cidade Maravilhosa.
Muda de novo
Só que ainda não foi desta vez que o Rio Negro consolidou a sua “identidade visual”. Segundo narrou Manoel Bastos Lira em seu livro, em 1917, o então presidente Lauro Cavalcante, um irremediável supersticioso, como descreveu o autor, decidiu propor a mudança do uniforme. Ele achava que o estilo “Botafogo de ser” não trazia muita sorte ao clube amazonense, assim como não trazia ao próprio Botafogo. No caso do Rio Negro, o clube já existia há quatro anos e nada de títulos. O jeito foi mudar.
Em Assembleia Geral os associados “compraram” a ideia do presidente e mudaram o uniforme, quer dizer, apenas a camisa. O calção continuou preto, já a camisa, passou a ser branca com uma faixa preta na altura da barriga carregando ao centro o escudo do clube. Nascia a lenda do “Barriga-Preta”.
Apesar das superstições do cartola, vale lembrar que a mudança do “manto” rionegrino não trouxe assim tanta “sorte” de imediato. O clube ainda levaria mais quatro anos para erguer a sua primeira taça, no Campeonato Amazonense de 1921. Era apenas o início de uma história que ainda rendeu outros 17 títulos de campeão estadual. O último conquistado em 2001.
Em cima de um cemitério
O Atlético Rio Negro Clube teve várias sedes provisórias ao longo de sua história. Mas, por essas ironias do destino, o clube acabou tendo como sua “última morada” justamente um cemitério.
“A sede do Rio Negro foi construída em cima de onde funcionava o cemitério São José. Toda aquela área de onde hoje fica o clube até a Praça da Saudade era um grande cemitério”, recorda o professor Francisco, que afirma que a remoção do cemitério se deu por um motivo puramente estético. “Na época achavam que o cemitério ali, na região central da cidade, acabava enfeiando Manaus, por isso decidiram inaugurar um novo cemitério, o São João Batista”, relata. Um ossuário foi construído no novo campo santo e os restos mortais foram transportados pra lá.
Por se tratar de um terreno onde existia um cemitério, é possível dizer que não houve um grande interesse imobiliário no local. Assim, a prefeitura construiu a Praça da Saudade e doou o resto do terreno para que ali fosse construída a sede do clube a pedido dos rionegrinos. A doação foi sacramentada pelo então prefeito Antonio Maia no dia 22 de maio de 1938, segundo relatos do livro “Sete Décadas de Barriga-Preta”.
A partir daí, a sede começou a ser construída com recursos dos próprios rionegrinos. Os mais endinheirados doaram somas mais generosas. Os mais humildes também deram sua colaboração, seja em dinheiro ou mão de obra. O palácio que se tornou um dos símbolos da Belle Époque baré e, como não poderia deixar de ser, foi assinada pelo engenheiro-arquiteto e evidentemente rionegrino, Aluisio de Araújo, que não cobrou absolutamente nada pelo projeto. Aluisio, aliás, apenas deu o pontapé inicial nas obras do clube e logo teve que deixar a cidade para trabalhar na construção do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.
O atual presidente do clube, Thales Verçosa conta que a sede foi inaugurada no ano de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. “A construção começou em 1938, na gestão do presidente Flávio de Castro, que foi um dos dirigentes que esteve mais tempo à frente do clube (até 1958). O Palácio tem um estilo de arquitetura dórica (arquitetura grega) e é o único clube que preservou suas tradições”, lembra o dirigente, que garantiu que o Rio Negro vai inaugurar a Arena da Amazônia em jogo contra o Nacional e que vai voltar com tudo em 2014. “Nossa realidade hoje é a Série B e vamos jogar a Série B porque do esporte que eu venho, que é o vôlei, não tem virada de mesa, mas vamos subir e não vamos cair mais”, prometeu.
A. Rio Negro Clube - AM

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