quarta-feira, 11 de junho de 2014

O que o satélite não vê


O Deter, sistema de detecção em tempo real do desmatamento do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) identificou, entre agosto de 2013 e 30 de abril deste ano, 1,5 mil km² de alertas de desmatamento, o que representa, segundo cálculos do Ministério do Meio Ambiente, uma redução de 20% na comparação com o período anterior. O anúncio vem um dia depois da publicação de informações de que o desmatamento na Mata Atlântica sofreu alta de 9%.
O sistema Deter, ao contrário do Prodes, não mede o tamanho total do desmatamento, mas pode indicar um quadro de tendência. Mesmo assim, qualquer notícia de diminuição da derrubada da floresta é bem vinda. Porém, devemos considerar alguns fatos.
Independente do número oficial, a quantidade de floresta que continua a ser perdida na Amazônia é alarmante e injustificável, ainda mais considerando que somos um país que pode continuar se desenvolvendo e até mesmo dobrar a produção de alimentos sem derrubar mais nenhum hectare de floresta.
Além disso, houve um aumento de concentração de nuvens em torno de 20% em comparação ao mesmo período da medição anterior. As nuvens limitam a capacidade de detecção dos satélites, o que pode impedir a visualização de áreas que sofreram desmate. Por fim, e caso confirmada, a queda anunciada ainda seria menor do que o aumento de 28% registrado no ano passado, o que  nos deixaria mais distantes de acabar com o desmatamento do que estávamos há dois anos atrás.
Mais do que em números, precisamos nos concentrar no que acontece no chão da floresta e que não sai nas fotografias enviadas pelos satélites. Há cerca de uma semana, lançamos uma campanha que denuncia o total quadro de descontrole e ilegalidade que imperam num dos maiores vetores de desmatamento da Amazônia, que é a extração madeireira. Segundo o IMAZON, entre 2011 e 2012 houve um aumento de 151% da extração ilegal de madeira apenas no Estado do Pará. A extração ilegal serve, na maioria das vezes, para financiar a operação do desmatamento, que é o que compõe os números finais do estrago florestal. Pior que isso, hoje os sistemas oficiais do governo que deveriam controlar e combater essa situação prestam o vergonhoso serviço de gerar documentos para “legalizar” madeira ilegal, alimentando o quadro atual.
Somente nos estados do Maranhão e Pará, quase 500 mil m³ de madeira serrada apresentaram documentos fraudulentos em 2013 – o suficiente para carregar 14 mil caminhões. Entre 2007 e 2012, uma falha nos sistemas permitiu que fosse irregularmente autorizada a comercialização de 1,9 milhão de metros cúbicos de produtos florestais, volume equivalente à uma área de 64 mil hectares de floresta explorada de forma ilegal, mais do que a área urbana da cidade do Rio de Janeiro.
Ineficiência de sistemas de controle, planos de manejo fraudulentos, impunidade, falta de governança na floresta, afrouxamento das leis ambientais  e o sucateamento dos órgãos de fiscalização são a base dos lamentáveis números de floresta perdida que são anunciados anualmente. E esses crimes contra a floresta acontecem principalmente em salas refrigeradas e gabinetes, locais que, mesmo sem nuvens, não são detectados pelos satélites.

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