quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As Tribos Indígenas do Estado do Amazonas

Você sabem quais são as tribos que habitam ou habitavam no Amazonas? E quais os seus costumes? Como o Brasil era povoado na época do Descobrimento?
Esse post é uma porção de informações sobre essa temática, trata de forma sintética a época do descobrimento e apontando principalmente para os dias de hoje as tribos indígenas do nosso Estado.
Esse mapa mostra como estão divididas as terras indígenas no Brasil atualmente.
Mapa das terras indígenas no Brasil
Mapa das terras indígenas no Brasil
“(…) o fato é que o litoral era dos Tupinambá e dos Guarani quando o Brasil foi descoberto. Esses dois blocos, contudo, não formavam duas grandes unidades políticas regionais: estavam divididos, nas palavras dos cronistas, em várias “nações”, “castas”, “gerações” ou “parcialidades”, algumas aliadas entre si, outras inimistadas até a morte.”
FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000, p. 74.
Aqui são alguns mapas do Brasil de acordo com a população indígena e sua cobertura regional na época do Descobrimento do Brasil
Mapa 1 Indígenas antes da chegada dos Europeus
Mapa 1
Indígenas antes da chegada dos Europeus
Mapa 2 Presença Indígena na costa brasileira a época do Descobrimento
Mapa 2
Presença Indígena na costa brasileira a época do Descobrimento
Mapa 3 Povos Indígenas do Brasil na época do Descobrimento
Mapa 3
Povos Indígenas do Brasil na época do Descobrimento
Várias aldeias ligadas por laços de consanguinidade e aliança mantinham relações pacíficas entre si, participando de rituais comuns, reunindo-se para expedições guerreiras de grande porte, auxiliando-se na defesa do território. As aldeias aliadas formavam núcleos de interação mais densa, nexos políticos no interior desses conjuntos maiores, designados na literatura como Tupiniquim, Tupinambá, Temomino e assim por diante. A realidade desses macroblocos populacionais, contudo, é incerta. Não sabemos como se distinguiam uns dos outros, nem como mantinham uma identidade comum. Qual era, por exemplo, a ligação com um determinado território? Qual a relação entre os Tupinambá do Rio de Janeiro e da Bahia, ou entre os Tupiniquim de São Paulo e do Espírito Santo?
FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000, p. 76
Os indígenas no Brasil, tem constitucionalmente garantidos conforme o Artigo 231 da Constituição Federal a sua organização social, costumes, lingua, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as teras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarcÁ-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
No mapa abaixo temos a disposição de todos os indígenas brasileiros por Estados.
Nas terras indígenas conforme o Parágrafo n.4 deste Artigo 231, dizem que as terras são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas imprescristíveis. sendo vedada a remoção dos grupos indígenas, salvo ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe, epidemias, que ponha em risco a sua população, ou no interesse da soberania do País. Garantindo o retorno imediato logo que cesse o risco.
Mapa dos Povos Indigenas Brasileiros na Atualidade
Mapa dos Povos Indigenas Brasileiros na Atualidade


Tribos Indigenas do Amazonas


APIAKÁ

Nomes alternativos: Apiacá
Classificação lingüística: Tupi-guarani
População: 192 (Funasa – 2001)
Local: Amazonas, Mato Grosso, Pará
Os Apiaká vivem no norte do Estado de Mato Grosso. Encontram-se dispersos ao longo dos grandes cursos fluviais Arinos, Juruena e Teles Pires. Parte deles reside em cidades como Juara, Porto dos Gaúchos, Belém e Cuiabá. Tem-se notícia também da existência de um grupo arredio. A maior parte de sua população encontra-se aldeada na Terra Indígena Apiaká-Kayabí, cortada pelo rio dos Peixes. Os Apiaká vivem na margem direita do rio e os Kayabí, na margem esquerda. Os Apiaká eram um povo numeroso, constituindo uma aldeia de até 1.500 pessoas, além de outras também populosas.

APURINÃ

Nomes alternativos: Ipurinãn, Kangite, Popengare
Classificação lingüística: Arawak
População: 2,000 (1994 SIL)
Local: Amazonas, Acre; espalhados sobre 1600 kilômetros do Rio Purus, de Rio Branco até Manaus

ATROARI

Nomes alternativos: Atruahí, Atroaí, Atrowari, Atroahy, Ki’nya
Classificação lingüística: Caribe
População: 350 (1995 SIL)
Local: Nos rios Alalau e Camanau na fronteira entre o estado de Amazonas e o território de Roraima. Também nos rios Jatapu e Jauaperi

BANIWA

Nomes alternativos: Baniva, Baniua, Curipaco
Classificação lingüística: Aruak
População: 5.811 (Dsei/Foirn – 2005)
Local: Amazonas
Os Baniwa vivem na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, em aldeias localizadas às margens do Rio Içana e seus afluentes Cuiari, Aiairi e Cubate, além de comunidades no Alto Rio Negro/Guainía e nos centros urbanos de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos (AM). Já os Kuripako, que falam um dialeto da língua baniwa, vivem na Colômbia e no Alto Içana (Brasil). Ambas etnias aparentadas são exímias na confecção de cestaria de arumã, cuja arte milenar lhes foi ensinada pelos heróis criadores e que hoje vem sendo comercializada com o mercado brasileiro. Recentemente, têm ainda se destacado pela participação ativa no movimento indígena da região. Esta corresponde a um complexo cultural de 22 etnias indígenas diferentes, mas articuladas em uma rede de trocas e em grande medida identificadas no que diz respeito à organização social, cultura material e visão de mundo.

DENI

Nomes alternativos: Dani
Classificação lingüística: Arawá
População: 875 (Funasa – 2006)
Local: Amazonas
Compreendem mais de 600 tribos indígenas que habitam uma planície entre os Rios Purus e Juruá, localizados no Amazonas. Considerados como Tribo Arawa, os Deni são parte do braço linguístico Aruak. A primeira menção aos Deni aparece no relatório SPI de 1942. São divididos em grupos ou clãs. Cada clã tem certa autonomia política, possuindo sua própria auto-identidade: Bukure Deni, Kuniva Deni, Minu Deni, Varasa Deni, Hava Deni, Madija Deni. Devido ao baixo potencial agrícola do solo da floresta, os Deni equilibram sua dieta com a flora e a fauna selvagens. Os Deni são nômades e sua população das aldeias oscila bastante, as aldeias são apenas uma agregação de grupos familiares e de famílias. Eles não possuem uma unidade inerente como comunidade. O Ciclo da Borracha, que se estendeu do fim do século XIX até 1940, foi a principal causa da rápida ocupação ocidental dos vales dos Rios Purus e Juruá e dos consequentes e trágicos desaparecimentos, diretamente ou pela introdução de doenças, de muitas Tribos Indígenas do Amazonas. Durante o boom da borracha, estima-se que a população indígena da região do Rio Purus era de aproximadamente 40 mil indivíduos.

DESSANAS


HIXKARYANA

Nomes alternativos: Hixkariana, Hishkaryana, Parukoto-Charuma, Parucutu, Chawiyana, Kumiyana, Sokaka, Wabui, Faruaru, Sherewyana ,Xerewyana, Xereu, Hichkaryana
Classificação lingüística: Caribe
População: 804 (censo de Maio, 2001)
Local: Amazonas, Rio Nhamundá acima até os rios Mapuera e Jatapú

HUPDA

Nomes alternativos: Hupdé, Hupdá Makú, Jupdá Macú, Makú-Hupdá, Macú De Tucano, Ubdé
Classificação lingüística: Maku (Puinave, Macro-Tucano)
População: 1,208 no Brasil (1995 SIL); 150 na Colômbia (1991 SIL); 1,350 nos dois países
Local: Rio Auari, noroeste de Amazonas
Já se tornou moeda corrente entre os regionais e na literatura etnográfica sobre o Noroeste Amazônico a distinção entre os chamados “índios do rio”, de fala Tukano e Arawak, e os “índios do mato”, de fala Maku. Enquanto os primeiros são agricultores que fixam suas aldeias nas margens dos rios navegáveis, os Maku vagam nos divisores de água, estabelecendo-se temporariamente onde encontram condições ecológicas favoráveis à caça e adequadas ao modo como eles costumam resolver seus conflitos internos: “quando a gente se desentende, a gente se espalha no mato e fica lá até a raiva passar.”

JAMAMADI

Nomes alternativos: Yamamadí, Kanamanti, Canamanti
Classificação lingüística: Arawak
População: 884 (Funasa – 2006)
Local: Amazonas, espalhados sobre 512.000 km2
Os Jamamadi fazem parte dos povos indígenas pouco conhecidos da região dos rios Juruá e Purus que sobreviveram aos dois ciclos da borracha, em meados do século XIX. Nos anos 1960, foi previsto seu desaparecimento como grupo diferenciado, mas a partir daquela época os Jamamadi conseguiram se recuperar, tanto em termos demográficos quanto culturais.

JARAWARA

Nomes alternativos: Jaruára, Yarawara, Jarauara
Classificação lingüística: Arawá
População: 180 (Funasa – 2006)
Data do início do trabalho da SIL: 1987
Local: Seis aldeias dentro da area indígena Jamamadi-Jarawara, no município de Lábrea, Amazonas.
A reserva fica perto do rio Purus,acima de Lábrea e no lado oposto do rio. Os Jarawara pertencem aos povos indígenas pouco conhecidos da região dos rios Juruá e Purus. Eles falam uma língua da família Arawá e habitam apenas a Terra Indígena Jarawara/Jamamadi/Kanamanti, que é constantemente invadida por pescadores e madeireiros.

KATUKINA

Nomes alternativos: Tukuna
Classificação lingüística: Katukina
População: 450 (2007)
Local: Amazonas
Designa dois grupos indígenas, da família Katukina, que autodenominam-se Peda Djapá (“Gente da Onça”). Vivem em diversos grupos no rio Biá, afluente do Jataí e Amazonas. Existem aproximadamente 220 índios. Os Katukina de língua da Família Pano, vivem no rio Envira, nas margens do rio Gregório, juntamente com os Yawanawá, na área indígena Rio Gregório, Acre, e na área indígena de Campinas. Os Katukina já foram chamados, por muitos viajantes, como “índios barbados” por causa do costume de pintar a boca de preto. A troca de cônjuges é bastante comum, mas os filhos sempre ficam com a mãe.

KAXARARI

Nomes alternativos: Kaxariri
Classificação lingüística: Pano
População: 323 (Funasa – 2006)
Local: Alto Rio Marmelo, tributário do Rio Abuna, Acre, Rondônia, Amazonas
O cacique Alberto César, 54, conta que Kaxarari é nome atribuído pelos brancos, a autodenominação é Runí-cuní e a língua pertence à família lingüística Pano. “Queremos resgatar as danças e a língua. Velho que morreu há três anos nunca viu a dança, mas guardou as histórias”.
Em 1924, uma epidemia de sarampo dizimou grande parte da população, em 1957-58 eram 13 famílias. Hoje são cerca de 400 pessoas divididos em 4 comunidades: Pedreira, Paxiúba, Barrinha e Marmelinho, que ocupam uma área de 145 mil hectares demarcados em 1987.

KAXINAWÁ

Nomes alternativos: Cashinauá, Caxinauá, Huni Kuin
Classificação lingüística: Pano
População: 4.500 (CPI/AC – 2004)
Local: Acre, Amazonas
Os Kaxinawá pertencem à família lingüística Pano que habita a floresta tropical no leste peruano, do pé dos Andes até a fronteira com o Brasil, no estado do Acre e sul do Amazonas, que abarca respectivamente a área do Alto Juruá e Purus e o Vale do Javari.

KULINA

Nomes alternativos: Kurína, Kolína, Curina ou Colina, Madiha
Classificação lingüística: Arawa
População: 2.537 (Opan – 2002)
Local: Acre, Amazonas
São também chamados de Kurína, Kolína, Curina ou Colina, e vivem em pequenos grupos. Quando se casa, o homem vive na casa da família da esposa e tem que trabalhar para retribuir a mulher. Cada casal tem a obrigação de gerar pelo menos três filhos, ganhando o direito de construir uma casa separada e continuando juntos se desejar. Eles acreditam que a concepção acontece sem qualquer contribuição feminina, e para engravidar, a mulher tanto pode relacionar-se apenas com o marido ou ter vários parceiros. Em qualquer dos casos, ela é a única responsável pelos cuidados com a criança.
Vivendo nas margens dos rios Juruá e Purus, os Kulina destacam-se pelo vigor com que mantêm suas instituições culturais, entre elas a música e o xamanismo. Um exemplo disso é que, apesar do antigo contato com brancos e da proximidade de algumas aldeias com centros urbanos, não se tem conhecimento de nenhum Kulina vivendo fora de suas terras.

MARUBO

Classificação lingüística: Pano
População: 1.252 (Funasa – 2006)
Local: Amazonas
Eles estão em contato com a sociedade nacional desde 1870 e foram incorporados ao trabalho de exploração da borracha. O homem pode se casar com várias mulheres (poligamia), e cada uma delas ocupa um espaço bem definido na maloca. Por influência dos missionários, hoje, os mortos são sepultados em cemitérios, mas a cremação fazia parte dos antigos costumes desses índios, eles comiam as cinzas com mingau para que o morto pudesse continuar entre eles. A única exceção ocorre com as crianças de colo, que são enterradas geralmente entre as árvores. É uma população de 600 pessoas, que falam a língua da família Pano e vivem ao longo dos rios Ituí e Curuçá, na Amazônia, junto à fronteira com o Peru.

MATIS

Nomes alternativos: Mushabo, Deshan Mikitbo
Classificação lingüística: Pano
População: 322 (2008)
Local: Amazonas
Estimados em várias centenas na época dos primeiros contatos (final dos anos 70), os Matis, falantes de uma língua Pano, não passavam de 87 em 1983. Todos os matis são monolíngües. Andam nus, raspam a cabeça, fazem orifícios labiais e auriculares e usam zarabatana. Vivem de caça pesca e coleta de produtos como o cacau e o buriti além das roças de milho, macaxeira, pupunha e cará.

MAYORUNA

Nomes alternativos: Matsé
Classificação lingüística: Pano
População: 1.592 (Funasa – 2006)
Local: Amazonas
Os Mayoruna não são ainda totalmente conhecidos devido a distância onde estão localizadas as suas aldeias. Anteriormente eles habitavam as cabeceiras do rio Gálves (Peru), formador, juntamente com o rio Jaquirara, do rio Javari. Este, por sua vez, afluente pela margem direita do rio Solimões.

MURAS


MUNDURUKUS


SATERÉ-MAWÉ


TICUNA

Nomes alternativos: Tikuna, Tukuna
Classificação lingüística: Tikuna
População: 35.000 (2008)
Local: Amazonas
Maior etnia da Amazônia brasileira, conta com uma população de 20.135 indivíduos, que ocupam cerca de 70 aldeias às margens do rio Solimões, no Estado do Amazonas. Outra parte do grupo vive no Peru. As meninas, quando ficam menstruadas, são submetidas a um ritual de iniciação, que sempre acontece na lua cheia, representando a bondade, a beleza e a sabedoria. Nesta festa, os índios fabricam máscaras de macacos e monstros e enfeites para as virgens. Um dos índios usa uma máscara com cara de serpente e incorpora o espírito do principal personagem do ritual, um monstro que vivia na água. Durante os festejos, o monstro faz gestos obscenos que divertem a tribo. Ele também ronda o cubículo onde fica a menina, batendo com um bastão no chão. Durante três dias e três noites, essa garota é protegida por duas tias que aproveitam o tempo dando conselhos de como ser uma boa mulher Tikuna: respeitar o marido, ser ativa e trabalhadeira.
Com uma história marcada pela entrada violenta de seringueiros, pescadores e madeireiros na região do rio Solimões, foi somente nos anos 1990 que os Ticuna lograram o reconhecimento oficial da maioria de suas terras. Hoje enfrentam o desafio de garantir sua sustentabilidade econômica e ambiental, bem como qualificar as relações com a sociedade envolvente mantendo viva sua riquíssima cultura. Não por acaso, as máscaras, desenhos e pinturas desse povo ganharam repercussão internacional.
Índio Tikuna
Índio Tikuna

TUKANO

Nomes alternativos: Tucano
Classificação lingüística: Tukano
População: 6.241 (Dsei/Foirn – 2005)
Local: Amazonas
São também chamados de Tucano, e a família lingüística Tukâno é dividida nos ramos ocidental, que compreende línguas faladas no Peru, Equador e Bolívia; e oriental, com as línguas Barasâna, Desâna, Karapanã, Kubéwa, Pirá-Tupúya, Suriâna, Tukâno e Wanâno, faladas desde a Colômbia até o Brasil, no Noroeste da bacia Amazônica. São extremamente vaidosos, gastam dias e esforços para capturar aves de plumagens belas, coloridas e variadas para fazer adornos. Eles também gostam de modificar as cores originais dando comidas especiais para as aves ou aquecendo as penas, processo conhecido como tapiragem. Usam até duas dezenas de aves para um único adorno. Estes enfeites são usados em rituais e aqueles que usam as peças mais bonitas são muito prestigiados pela tribo.
Os índios que vivem às margens do Rio Uaupés e seus afluentes – Tiquié, Papuri, Querari e outros menores – integram atualmente 17 etnias, muitas das quais vivem também na Colômbia, na mesma bacia fluvial e na bacia do Rio Apapóris (tributário do Japurá), cujo principal afluente é o Rio Pira-Paraná. Participam de uma ampla rede de trocas, que incluem casamentos, rituais e comércio, compondo um conjunto sócio-cultural definido.
Índios Tukano
Índios Tukano

TUPINAMBÁ

Consituíam o povo tupi por excelência. As demais tribos tupis eram, de certa forma, suas descendentes, embora o que de fato as unisse fosse a teia de uma inimizade crônica. Os tupinambás propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil.
Conhecidos também como Tamoio ou Tamuya, habitavam várias áreas do litoral brasileiro que ia da atual cidade de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, a Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro. “Tamoio” significa avô, o mais velho, e “Tupinambá” talvez signifique o primeiro, o mais antigo. Os Tupinambá viviam sobretudo no estado do Rio de Janeiro, onde se calcula um total de 6 mil pessoas. O conjunto da nação Tupinambá nessa região não deveria ultrapassar 10 mil pessoas.
Três traços principais marcavam este povo: a inteligência, a guerra e a abertura para o novo. Uma outra característica marcante dos tupinambás era a prática do canibalismo. Acreditavam que ao consumirem a carne de pessoas, poderiam adquirir suas qualidades (inteligência, coragem, habilidades bélicas, etc).
As diversas tribos tupinambás possuíam uma língua comum, conhecida como tupi, porém não mantinham uma unidade e chegavam até mesmo a guerrearem entre si. Os tupinambás fizeram parte da Confederação dos Tamoios, entre 1556 e 1567, na luta contra os colonizadores portugueses.
É praticamente consenso, embora ainda se discutam alguns aspectos relativos ao período de ocorrência, que os Tupinambás tenham passado a habitar a região do Maranhão e Pará em função da fuga que empreenderam pela costa sul-norte e leste-oeste devido ao avanço dos portugueses nos seus antigos territórios. Essa diáspora indígena aconteceu portanto com os tupinambás suindo do Rio de Janeiro para o Maranhão e depois entrando do Maranhão pro Pará e Amazonas.
Durante a migração, os Tupinambás dividiram-se em três bandos. Os que se fixaram no Amazonas atingiram primeiramente o rio Madeira. Contudo, alguns conflitos com os espanhóis obrigaram-nos a emigrar novamente. Neste movimento atingiram a ilha dos Tupinambaranas (onde se situa Parintins).
Gravura em cobre de Theodor de Bry. Dança ritual dos Tupinambá. No centro, três pajés com mantos de penas, cintos e diademas.
Gravura em cobre de Theodor de Bry. Dança ritual dos Tupinambá.
No centro, três pajés com mantos de penas, cintos e diademas.
Índias Tupinambaranas
Índias Tupinambaranas

WAIÃPI

Nomes alternativos: Wayampi, Wayãpi, Oyampi, Oiampi, Oyampik, Guayapi
Auto-denominação: Waiãpi
Classificação lingüística: Tupi, Tupi-Guarani, Subgrupo 8, Wayampi
População: 905 (Apina/Funai – 2008)
Local: Várias aldeias nos tributários do rio Amapari na parte leste do Amapá e nos rios Oiapoque e Camopi na Guiana Francesa; há também uns poucos falantes no rio Paru Leste, na parte nordeste do Pará, Brasil Wajãpi é o nome utilizado para designar os índios falantes desta língua Tupi que vivem na região delimitada pelos rios Oiapoque, Jari e Araguari, no Amapá. São os mesmos Guaiapi, mencionados na região do baixo rio Xingu, sua área de origem, desde o século XVII.

WAIMIRI ATROARI

Nomes alternativos: Kinja, Kiña, Uaimiry, Crichaná
Auto-denominação: Waimiri Atroari
Classificação lingüística: Karib
População: 1.120 (PWA – 2005)
Local: Amazonas, Roraima
São uma etnia do tronco lingüístico Karib, cujo território imemorial de ocupação se localiza ao sul de Roraima e norte do Amazonas. Eram mais conhecidos como Crichanás, quando segmentos expansionistas travaram seus primeiros contatos com eles, sobretudo a partir do Século XIX.
Nos primórdios desses contatos, há duas estimativas sobre a população: uma que os dava como sendo seis mil pessoas; e a outra, em torno de duas mil. Suas terras eram pródigas em produtos de grande importância comercial para a época, atraindo assim a cobiça de colonizadores. A demografia dos Waimiri Atroari, que, em 1987, era de 374 pessoas, chegou a crescer registrando em 1999 830 índios.
Os Waimiri Atroari, durante muito tempo, estiveram presentes no imaginário do povo brasileiro como um povo guerreiro, que enfrentava e matava a todos que tentavam entrar em seu território. Essa imagem contribuiu para que autoridades governamentais transferissem a incumbência das obras da rodovia BR 174 (Manaus-Boa Vista) ao Exército Brasileiro, que utilizou de forças militares repressivas para conter os indígenas. Esse enfrentamento culminou na quase extinção do povo kinja (autodenominação waimiri atroari).
A interferência em suas terras ainda foi agravada devido a instalação de uma empresa mineradora e o alagamento de parte de seu território pela construção de uma hidrelétrica. Mas os Waimiri Atroari enfrentaram a situação, negociaram com os brancos e hoje têm assegurados os limites de sua terra, o vigor de sua cultura e o crescimento de sua gente.

YANOMAMI

Nomes alternativos: Yanoama, Yanomani, Ianomami, Yanomámi, Waicá, Waiká, Yanoam, Yanomam, Yanomamé, Surara, Xurima, Parahuri
Classificação lingüística: Yanomami
População: 15.682 (Funasa – 2006)
Local: Posto Waicá, Rio Uraricuera, Roraima; Posto Toototobi, Amazonas; Rio Catrimani, Roraima
Povo constituído por diversos grupos cujas línguas pertencem à mesma família, não classificada em troncos. Denominada anteriormente Xiriâna, Xirianá e Waiká, a família Yanomami abrange as línguas Yanomami, falada na maior extensão territorial, Yanomám ou Yanomá, Sanumá e Ninam ou Yanam, as quatro com vários dialetos. Os Yanomami vivem no oeste de Roraima, no norte do Amazonas e na Venezuela, num total de 20 mil índios.
É o último povo indígena das Américas que conseguiu sobreviver mantendo seu patrimônio cultural e social. Seus membros, 7822 indivíduos, vivem dos dois lados da fronteira entre o Brasil e a Venezuela, próximo ao Pico da Neblina. Os Yanomami abrem várias trilhas para ligar as diferentes aldeias com as áreas de caça, os acampamentos de verão e as roças recentes e antigas. Eles fazem um constante rodízio entre esses lugares e com isso, a floresta se recupera com rapidez. Todos da tribo moram numa imensa casa coletiva e as crianças ocupam um lugar de destaque, suas necessidades são prontamente atendidas e seus pedidos sempre levados em conta. Embora haja um intercâmbio freqüente de mulheres e produtos, cada uma das aldeias tem completa autonomia política e administrativa. Esses índios queimam os seus mortos e comem as cinzas. Eles acreditam que os espíritos, que podem ser bons ou maus, habitam as plantas e animais. Os garimpeiros disputavam suas terras desde 1987, atraídos pelas grandes reservas de diamante, ouro, cassiterita e urânio, colocando em risco a sobrevivência do povo Yanomami. Em 1990, o governo brasileiro adotou medidas de proteção às terras indígenas, iniciando a retirada dos garimpeiros.

YE’KUANA

Nomes alternativos: Yekuana
Classificação lingüística: Karib
População: 430 (Moreira-Lauriola – 2000)
Local: Amazonas, Roraima
Os Ye’kuana, antigos viajantes na Amazônia, na floresta e na cidade, mostram como a articulação de espaços diferentes, dentro e fora de seu território tradicional, cria uma dinâmica que longe de descaracterizar sua identidade, pode favorecer um sistema de criação e manutenção de redes de apoio, de trocas econômicas, de informação e de projetos econômicos e sociais.

YUHUP

Nomes alternativos: Makú-yahup, Yëhup, Yahup, Yahup Makú, “Maku”
Classificação lingüística: Maku
População: 360 no Brasil (1995 MTB); 600 em total (1986 SIL)
Local: Amazonas, num tributário do Rio Vaupés. Talvez também na Colômbia

Aécio Neves: “Está chegando a onda da razão”



O candidato à Presidência da República pela Coligação Muda Brasil, Aécio Neves, afirmou, neste domingo (14/09), no Rio de Janeiro, que está chegando “a onda da razão” na campanha eleitoral e que está confiante na vitória. “A minha expectativa é que, depois de várias ondas nestas eleições, está chegando a onda da razão. E, na onda da razão, somos nós que vamos vencer as eleições”, ressaltou.

Aécio avaliou o perfil das principais adversárias na disputa presidencial. Sem mencionar nomes, ele afirmou que há uma candidatura que fracassou e envergonha a todos os brasileiros, porque levou o país a parar de crescer, e por isso terá muita dificuldade de vencer, e outra que não adquiriu ainda as condições de governabilidade.

Ao analisar sua candidatura, Aécio demonstrou confiança. “Nós temos um projeto consistente, construído com inúmeras mãos, com os brasileiros e brasileiras mais qualificados. Eu vou até o dia 5 de outubro dizendo: ‘Nós não temos o direito de perder uma oportunidade de fazer o Brasil crescer, de se reconciliar com a ética, enfim, dar de novo esperança e alegria as pessoas’”, afirmou.

Questionado sobre as pesquisas de intenção de voto, em que ele aparece em terceiro lugar, Aécio lembrou que a morte de Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência, mudou o cenário político.

“O quadro mudou. Nós estamos tendo uma segunda eleição após a morte de Eduardo Campos. O fato é esse. Eu não tampo o sol com a peneira. As coisas mudaram, mas as minhas convicções são as mesmas. O errado seria eu mudar de ideia porque alguém tuitou algo contra uma proposta minha.”

Coerência

Aécio lembrou que Marina Silva, no passado, defendeu a proibição do cultivo de transgênicos, posição hoje negada por ela. “[O errado] será eu mudar de ideia porque preciso agora agradar um determinado setor da economia porque eles têm votos, mesmo que lá atrás, no caso do agronegócio, a Marina tenha sido frontalmente contrária, por exemplo, ao avanço dos transgênicos no Brasil.”

O candidato ressaltou a importância do cultivo de transgênicos para geração de empregos e crescimento da economia. “Se não fossem os transgênicos, nós não estaríamos empregando milhares de pessoas no campo e tendo um crescimento da economia baseado exatamente na produção do agronegócio.”

Aécio reiterou que sua trajetória política é baseada na coerência. “Eu tenho um projeto para o Brasil amplamente discutido, coerente com o meu passado, eu não mudo de posição ao sabor dos ventos”, destacou ele.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Tudo sobre os Povos Indígenas Mura

Tudo que você precisa saber sobre os  guerreiros mura. Esse povo indígena empresa seu nome também a uma escola de ciranda em Manacapuru (Guerreiros Muras),  e várias vezes já foram citados em músicas, principalmente em toadas de boi bumbá (a que mais curto é Caprichoso 2000 – Mura , O Príncipe das Águas).
O  “abominável índio Mura” ficou conhecido pela violenta belicosidade com que reagiu a colonização. Constituíram o paradigma dos índios bárbaros contra os quais se deveria mover a mais enfurecida guerra, como queriam as autoridades na época.
Sua expansão territorial a partir do rio madeira, estendeu-se até a fronteira da Peru até o rio Trombetas no atual estado do Pará.
Ao contrário do que “contam” muitos livros, os índios Mura não foram dizimados, não se extinguiram e resistiram contra quem os queriam destruir e contra as doenças que enganaram muitos parentes. O sangue da herança cultural dessa etnia guerreira e resistente, continua a exaltar-se pelo direito à terra, nas aldeias indígenas ao redor de Novo Céu, principalmente no Município de Autazes.
Ciranda Guerreiros Mura de Manacapuru
Ciranda Guerreiros Mura de Manacapuru

Introdução

Os Mura ocupam vastas áreas no complexo hídrico dos rios Madeira, Amazonas e Purus. Vivem tanto em Terras Indígenas, quanto nos centros urbanos regionais, como Manaus, Autazes e Borba. Desde as primeiras notícias do século XVII são descritos como um povo navegante, de ampla mobilidade territorial e exímio conhecimento dos caminhos por entre igarapés, furos, ilhas e lagos. Em seu longo histórico de contato, sofreram diversos estigmas, massacres e perdas demográficas, linguísticas e culturais.
Originariamente falantes de uma língua isolada, os Mura passaram a utilizar o Nheengatú (Língua Geral Amazônica) no intercâmbio com brancos, negros e demais populações indígenas. No século XX, o português se tornou a principal língua utilizada. No presente, a despeito das mudanças históricas, os Mura realizam diversos esforços para serem plenamente reconhecidos enquanto povo diferenciado.
A luta entre os colonizadores europeus e os índios da região foi encenada pelos cirandeiros Foto: Evandro Seixas
A luta entre os colonizadores europeus e os índios da região foi encenada pelos cirandeiros
Foto: Evandro Seixas

Nome

Falantes da língua portuguesa, os Mura conjugam a miscigenação e a territorialidade em suas formas atuais de autodenominação. Questionado sobre local do nascimento ou sobre a identidade indígena, os Mura comumente respondem: “sou caboclo legítimo do rio Madeira”. Por “caboclo legítimo” buscam esclarecer a condição particular do grupo étnico: afirma a determinação política de ser Mura a despeito das mudanças históricas. Ocorre, assim, a apropriação de um termo regional, “caboclo”, normalmente utilizado com desprezo pelos regionais para definir o índio “impuro”, “aculturado”. Positivado pelos índios, o termo “caboclo” passa a identificar o que é ser Mura hoje: índio misturado, cuja genealogia é o resultado da incorporação de nordestinos, maranhenses, peruanos e não-índios em geral, que passaram a compor a etnia através de casamentos, a maioria das vezes, com mulheres mura. Por “caboclo” o Mura alude ao componente biológico, o sangue indígena, ainda que misturado; por “legítimo” sinaliza o pertencimento a uma determinada área geográfica; um rio, igapó ou lago, por exemplo. Não é mais “índio puro” porque viveu o processo civilizatório com todos seus terríveis matizes do período colonial ao presente. Ao se assumirem “caboclos legítimos” os Mura reafirmam a consciência do complexo processo histórico vivido pelo grupo para se manter enquanto tal. A sociedade regional, no entanto, freqüentemente questiona se os Mura seriam “índios de verdade”.
Cacique da etnia Mura (AM) durante reunião para tratar das reivindicações dos indígenas do Amazonas que havia 15 dias ocupavam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) no estado foto : Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Cacique da etnia Mura (AM) durante reunião para tratar das reivindicações dos indígenas do Amazonas que havia 15 dias ocupavam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) no estado
foto : Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Língua

Os Mura dos rios Madeira e Solimões falavam até o início do século XX a língua Mura, de um tronco linguístico isolado. Desde a época da conquista, estes índios passaram a utilizar também a língua geral (ou Nheengatu), que gradativamente foi sendo substituída pelo português.
Em 1826 um observador anônimo deixou registrado que os Mura da embocadura do Madeira falavam “a língua geral além das suas três gírias – a articular nasal, a gutural e a da gaita” (C. Moreira Neto, 1988: 358). Situação linguística semelhante foi descrita por Barbosa Rodrigues (1975) no rio Urubu; Tastevin (1923) nas proximidades de Manaus; e Nimuendajú, em relação aos Mura dos rios Madeira e Solimões.
O Apaitsiiso, língua falada pelos Pirahã, atuais habitantes dos rios Marmelos e Maici, classificados por Nimuendaju (1946) como um sub-grupo Mura, possui estas mesmas características. Os estudos de Henrichs (1964), Everett (1978, 1983) e Gonçalves (1988, 2001) a descrevem como uma língua tonal, na qual significados são estabelecidos eminentemente a partir de relações de tons. Por meio de assovios e gritos, por exemplo, os falantes são capazes de gerar uma modalidade de comunicação específica, especialmente eficaz para conversas a longas distâncias.
A língua geral, arquitetada pelos jesuítas a partir das línguas Tupi-Guarani da costa, foi até a expulsão dos jesuítas e a criação do governo laico do Diretório Pombalino (1755), a língua oficial da colônia no Grão-Pará, imposta a todos os nativos nas missões, nas relações comerciais e nos esforços de disciplinarização para o trabalho. Até o século XIX, os Mura a utilizavam amplamente na comunicação com colonos, missionários, escravos negros e outros povos indígenas. Isto, entretanto, não quer dizer que houvessem abandonado a língua Mura. No século XX, o Nheengatu perdeu para o Português o papel de língua franca intercultural.
Atualmente, os Mura, falantes de Português, assim como outros povos amazônicos que perderam suas línguas maternas, reafirmam o Nheenhatu como uma língua indígena. Em diversos casos os Mura associam termos e locuções em língua geral falada pelos mais velhos à própria língua Mura.
No presente, os Mura vêm realizando esforços de valorização e resgate linguístico e cultural das diversas “gírias” da língua Mura.
Acervo: Mário de Andrade No. de Tombo: MA-0640 Título: Duas cabeças indígenas: Mura e Jumana Técnica: litografia colorida s/ papel Ano: séc XIX Dimensões: 49 cm x 65.2 cm
Acervo: Mário de Andrade
No. de Tombo: MA-0640
Título: Duas cabeças indígenas: Mura e Jumana
Técnica: litografia colorida s/ papel
Ano: séc XIX
Dimensões: 49 cm x 65.2 cm

Localização

As fontes históricas dos séculos XVIII e XIX apontam a presença dos Mura em vastas e diversas regiões da Amazônia oriental. A abrangência de sua ocupação territorial e a densidade populacional do grupo foram abordados pioneiramente por Nimuendajú (1948). A partir do século XVII, os Mura teriam migrado da fronteira com o Peru (região de Loreto) para diversas regiões dos complexos hídricos dos rios Japurá, Solimões, Madeira, Negro e mesmo Trombetas (região de Oriximiná). A esta área de ocupação corresponderia uma população estimada entre em 60.000 e 30.000 pessoas. Neste período, a ação das tropas de resgate e das missões ocasionou a fragilização e depopulação de diversas etnias que ocupavam tais regiões, o que para muitos, acabou por beneficiar o crescimento populacional e a expansão mura para o leste. Nos séculos XVIII e XIX, a despeito de terem sofrido diversos ataques empreendidos pela colônia, os Mura mantiveram extensas posições no complexo hídrico dos rios Madeira, Solimões e Purus.
Atualmente, os Mura continuam a ocupar largas porções territoriais nestas mesmas regiões hídricas. Encontram-se dispersos em mais de 40 Terras Indígenas, em diferentes estágios de regularização fundiária, distribuídas pelos municípios de Alvarães, Anori/Beruri, Autazes, Borba, Carceiro da Várzea, Novo Aripuanã, Itacoatiara, Manaquiri, Manicoré e Uarini; todos situados no Estado do Amazonas, sobretudo nas regiões de interflúvio dos rios Madeira e Purus. Nos centros urbanos, tais como a capital estadual Manaus e as sedes dos municípios habitados, registra-se a existência de bairros quase exclusivamente ocupados por segmentos populacionais mura, que mantém estreitos vínculos com os moradores das aldeias situadas nas TIs.
Os muras eram nômades
Os muras eram nômades

População

Devido à ampla mobilidade e dispersão dos Mura em um vasto território, as contagens populacionais globais são altamente imprecisas e difíceis de serem realizadas. A reunião dos levantamentos publicados pela Funai, produzidos no âmbito dos processos de regularização fundiária, conduzidos entre 1991 e 2008, apontam para uma população aproximada de 9.300 pessoas habitantes de Terras Indígenas.
Este cômputo, entretanto, não incorpora a população de aldeias e Terras Indígenas cujos processos demarcatórios ainda não foram concluídos, nem sequer os habitantes de centros urbanos, o que vem a dificultar, ou mesmo impedir, o planejamento de políticas públicas adequadas de atendimento à população mura, tanto nas aldeias quanto nas cidades.
Crianças Muras Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008
Crianças Muras
Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008

Histórico do contato

A presença mura no sistema hidrográfico do rio Madeira é documentada desde início do século XVIII. As primeiras notícias coloniais dão conta de uma população de navegantes, com total domínio dos intrincados caminhos fluviais e das artes de subsistência nos rios e lagos, que vivia embarcada durante as cheias e acampada em jiraus e tapiris – habitações provisórias de palha – construídos nas praias durante o verão. Nas raras descrições da época, estas características eram associadas à ausência; eram tidos como povos sem religião, sem lei, sem agricultura, sem aldeias e sem cultura material.
Apenas no fim do século XX, com o fortalecimento da etnologia das terras baixas sul-americanas, tais visões foram questionadas. Em pesquisa sobre os Mura-Pirahã, Marco Antonio Gonçalves (1988, 1990, 1993) interpretou tais “ausências” como a expressão de um padrão cultural minimalista, que encontra na descartabilidade o principal elemento de sua filosofia de vida.
Fonte: Biblioteca Nacional (Brasil), Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira
Fonte: Biblioteca Nacional (Brasil), Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira

A construção do inimigo mura

Os Mura acumulam uma longa história de contato com a sociedade envolvente. Desde tempos remotos, colonos e missionários católicos construíram e disseminaram fortes estigmas contra tal povo, a ponto de recusar-lhes até mesmo a condição de seres humanos. Em meados de 1714 foram realizadas as primeiras e totalmente frustradas tentativas de redução dos Mura aos aldeamentos da Companhia de Jesus na região do Madeira. Desde então, foram vistos como ameaças aos estabelecimentos implantados na região junto a outros povos, devido aos frequentes ataques contra tais núcleos, bem como contra as embarcações comerciais que atuavam nos cacauais nativos do rio Madeira. A história da Vila de Trocano, nome colonial de Borba, a primeira vila da Amazônia, ilustra este período: acossados pelos Mura, os jesuítas transferiram Trocano de lugar cinco vezes (Ferrari, 1981).
Tais situações e visões passaram a fundamentar tanto a práxis da violência quanto as leis de exceção para com os Mura. As primeiras denúncias contra tais povos se deram na fase de hegemonia da Junta das Missões, entidade com atribuições jurídicas, formada pelas ordens religiosas católicas atuantes no Grão-Pará até 1755. Algumas dessas ordens tinham comprovado interesse mercantil no rio Madeira. Os jesuítas, por exemplo, exploravam os seus cacauais nativos (Azevedo, 1919) e de tal indústria extrativa efetuavam um volume significativo de exportações. Para esses empreendimentos, a presença mura às margens do rio Madeira representava uma ameaça que deveria ser combatida.
Este é o cenário no qual se germinou a criação dos Autos da Devassa contra os Índios Mura do rio Madeira (1738-1739), que consistia em uma ação judicial movida pelas ordens religiosas que atuavam na região do Madeira. A partir de então, os Mura passaram a figurar como inimigos oficiais da Igreja e da Coroa portuguesa, passíveis de serem mortos e escravizados. Durante todo o século XVIII, os documentos sobre os Mura posteriores à Devassa repetiam e reforçavam imagens fortemente pejorativas. Os registros históricos dão conta de “populações selvagens, tratáveis apenas através da guerra e do extermínio”.
Posto no Lago da Josefa. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Posto no Lago da Josefa. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Tais documentos, entretanto, quando investigados criticamente, apresentam inconsistências e contradições flagrantes. O caso da “Memória do Gentio Mura”, compilada por Alexandre Rodrigues Ferreira, é notável. Este texto, que serviu de base para a declaração de guerra da Coroa Portuguesa contra os Mura, foi escrito em Belém, sem ter o autor sequer iniciado sua famosa jornada pela Amazônia, descrita na Viagem Filosófica. A base da denúncia contra os Mura e da descrição das suas técnicas de guerra era literária; o autor atribui aos Mura características guerreiras dos Tupi da costa, que conhecera através da leitura de crônicas e relatos de viagens. Em 1757, quando da fundação do Diretório Pombalino que garantia liberdade formal aos índios, os Mura continuaram a ser uma exceção, uma vez que considerados inimigos oficiais da Coroa.  A Carta Régia de 1798 também excluiu os Mura dos benefícios da Lei. Juntamente com os Karajá e os Munduruku, figuravam como “exceções de liberdade”. Uma vez que inimigos irreconciliáveis da Coroa, a escravidão imputada contra essas populações sempre foi uma empresa aceita e oficializada.Data de meados 1784 a criação dos primeiros aldeamentos leigos de índios Mura “pacificados”. Estes aldeamentos eram freqüentados pelos Mura na época da colheita das roças. O resto do tempo a população mantinha hábitos tradicionais de pesca, caça e coleta, utilizando para tanto os furos e igarapés do sistema hidrográfico do rio Madeira.  Embora discutíveis do ponto de vista da eficácia da sedentarização da população que diziam abrigar, estes aldeamentos marcaram, no entanto, uma nova fase de convivência destes grupos nativos com a colônia.
Do ponto de vista da população indígena, o que ocorreu foi um gradativo abandono das vias principais dos rios Madeira e Solimões pela região dos rios e lagos daquele sistema hidrográfico. Com isso ficava garantida proteção e farta subsistência para inúmeros grupos que pontilhavam as margens dos rios, lagos, igarapés, ocupando de forma extensiva e pouco densa um território de vastas dimensões. Os Mura detinham o conhecimento sobre caminhos indevassáveis ao colonizador português; deste modo, sua presença era registrada tanto na vila colonial de Borba, quanto nos rios Japurá, Purus, Solimões e Negro. A imagem do “Mura Agigantado” que consta do poema arcádico de Wilckens se originou neste contexto, no qual o colonizador, perplexo diante de tamanha mobilidade, passou a temer a floresta tropical por identificá-la com a “morada do gentio mura”.

O Mura Agigantado

O território imenso ocupado pelos Mura é um tema recorrente na história colonial da Amazônia; ao qual se associou o temor de um levante generalizado de tal povo contra a colonização. Para a maioria dos autores, isso explica as diversas ações militares movidas contra o grupo ocorridas a partir de meados de 1774. Em diversos contextos, os colonizadores retomavam os argumentos dos Autos da Devassa e exigiam o completo extermínio deste povo para evitar a ruína da “civilização” na Amazônia.
Neste contexto, é notável que as próprias características de suas formas de territorialidade e de sua organização social – e não atos atrozes de violência – colaboraram para a construção da figura pejorativa do “inimigo mura”. Por um lado, a colônia pretendia combater sua extrema mobilidade territorial e aversão à sedentarização, que lhes permitia expandir cada vez mais suas áreas de ocupação. Por outro, visava-se combater a “murificação”, que se consistia na prática de agregar aos seus próprios grupos diversos elementos fugidos das missões e vilas coloniais; tais como negros, brancos pobres e índios desterrados de diversas origens étnicas.

Os Mura e a cabanagem (século XIX)

Extraído de SPIX & MARTIUS. 1981. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia, EDUSP. (Volume 3)
Extraído de SPIX & MARTIUS. 1981. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia, EDUSP. (Volume 3)
No século XIX, os Mura tiveram presença marcante nos confrontos armados da cabanagem (1835-1840), ocorridos em todo o território da Amazônia brasileira. À época, a forte presença dos Mura no complexo hídrico dos rios Madeira e Solimões foi atestada pela própria documentação da repressão, que atuou intensamente na região entre 1836 – quando da retomada legalista de Belém e intensificação dos combates ao interior – até meados de 1840, quando os confrontos foram dados por finalizados pelo presidente da província com a rendição de aproximadamente 800 rebeldes na região de  Maués, situada na região da ilha de Tupinambarana (curso do rio Amazonas), no interflúvio Madeira-Tapajós.
Assim como os demais contrários da “legalidade do Império”, os Mura eram identificados de modo genérico como “cabanos”, inimigos dos “homens de bem, da civilização e da humanidade”, passíveis de serem legalmente exterminados, escravizados (remetidos a corpos militares de trabalhadores) ou desterrados da província para outras regiões do Império (Moreira Neto, 1988; Mahalem de Lima, 2008).Pesquisa recente sobre a memória dos Mura de Autazes sobre a cabanagem apresenta outras versões. Na memória dos mais idosos das aldeias de Autazes tratou-se de uma guerra contra os Mura. Em suas narrativas, os cabanos não seriam eles próprios ou aqueles aos quais se aliaram, mas sim os portugueses, os militares e soldados ligados às forças legalistas, bem como as populações indígenas dos rios Tapajós (Munduruku) e Negro, que se aliaram a eles (Castro Pereira, 2009).
A repressão militar aos cabanos marca uma das mais dramáticas páginas da história da Amazônia. Além dos processos de desterro e escravização, estima-se a morte de 40.000 de pessoas (ou aproximadamente um terço da incerta população amazônida da época).
Vencidos em mais uma guerra e novamente alvo de programas de “pacificação”, os Mura foram descritos pelos viajantes do século XIX, tais como Spix & Martius (1976 [1823]) e Coutinho (1861), na condição de nativos corrompidos pelo contato, “aculturados”, viciosos, que se empregava na pesca e caça de animais aquáticos em troca de cachaça. Eram, enfim, tidos como uma população decadente e altamente primitiva. Nota-se, entretanto, que embora derrotados em combates e fortemente estigmatizados pela visão do colonizador, os Mura continuaram a ser a principal e mais numerosa população do sistema hidrográfico do rio Madeira.

Os Mura e a atuação do Serviço de Proteção aos Índios – SPI

O SPI se fez presente nas terras mura do município de Borba desde as primeiras décadas do século XX, quando se iniciaram os trabalhos de demarcação de suas terras. Em 1917, o Governo do Estado do Amazonas, autorizou a concessão de lotes de terra à população indígena, o que moveu o SPI a demarcar lotes destinados aos Mura nos municípios de Manicoré, Careiro, Itacoatiara e Borba.
A concessão de pequenos lotes de terra e a concentração da população mura em aldeias, tal como a situação atual, foi fato historicamente constituído neste contexto e data provavelmente das duas primeiras décadas do século XX. A medida visava, ao mesmo tempo, racionalizar o uso de um vasto território e da mão de obra indígena, concentrando os índios em lotes devidamente demarcados e liberando para a população não-índia o restante da área. Criava-se, deste modo, em um território tradicional dos Mura dois estatutos diferenciados de uso da terra: a terra dos índios, configurando área federal, “da nação”, sendo seus habitantes tutelados pelo SPI; e a terra dos “civilizados”, de jurisdição municipal.
Posto no Lago da Josefa. Grupo de índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Posto no Lago da Josefa. Grupo de índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
As fontes históricas apontam para diversos conflitos de interesse entre os agentes do SPI e os Mura. Nimuendaju, que esteve em Borba em 1926, refere-se à morte de um funcionário do SPI em Sapucaioroca e Vista Alegre, acusado pelos Mura de estar demarcando terras dos índios para particulares.
No Jutaí do Igapó-Açú, a Inspetoria do SPI mantinha um delegado, Sr. Odorico Ferreira Chaves, que aparece na documentação como uma liderança não-índia instalada na aldeia com a função de explorar o trabalho dos índios e organizar a comercialização da castanha. O funcionário do SPI, tal como em outras regiões da Amazônia, fazia as vezes do “patrão” dos seringais, cargo muitas vezes ocupado pela polícia local.

Os Mura e a atuação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI)

A política de arrendamentos no período do SPI explica em parte o fenômeno migratório dos Mura em direção aos centros urbanos da região. Um levantamento mais sistemático das correntes migratórias da população indígena em direção aos bairros Mura de Borba e Autazes poderia esclarecer este episódio recente da história dos Mura, assim como elucidar os mecanismos de atuação de políticas indigenistas que impeliram o grupo ao desaldeamento e à concentração urbana em bairros habitados exclusivamente pelos Mura.
Posto do Capivara, no rio Autaz-Assú - Habitação dos índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Posto do Capivara, no rio Autaz-Assú – Habitação dos índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
A retomada pelos Mura – e o reconhecimento oficial – de seus territórios tradicionais é um fenômeno recente em sua história. Este processo de reocupação e reorganização das aldeias se iniciou em meados dos anos 1970 e foi respaldado na década seguinte pelas mobilizações das organizações indígenas da Amazônia em torno da questão da terra. Os Mura participaram desde os primeiros anos de formação da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas Brasileiras), por meio de lideranças que fundaram o CIM (Conselho Indígena Mura).
Em 1987, a Funai voltava sua atenção para os Mura, mais exatamente para o território de Cunhã-Sapucaia e Jutaí, áreas de interesse da Petrobrás, que pretendia realizar pesquisa e posteriormente lavra de petróleo e gases raros nas Terras Indígenas do rio Preto do Igapó-Açú. O trabalho de pesquisa consistia na abertura de picadas e duas linhas sísmicas em um território que, presumira-se em Brasília, não ser de ocupação do grupo. Com o início dos trabalhos, as autoridades e pesquisadores constataram que a área de interesse da Petrobrás incidia em território de ocupação dos Mura. Em seus relatórios, registravam, com certa surpresa, que os Mura surgiam de dentro da floresta e reivindicavam aquele território para si.
Esquecidos ou espoliados pelo poder tutelar desde meados do século XX, os Mura viam-se diante de um evento global de dimensões inéditas, que prometia mudanças radicais no seio de sua sociedade. Acenava-se com o dinheiro das indenizações para os índios; além disso, oferecia-se aos Mura a possibilidade de engajamento nas frentes de trabalho, e franqueava-se a eles brindes, cestas básicas, utensílios, bem como a possibilidade de convívio com um aparato tecnológico cinematográfico.
Ficou acertado, por intermédio da Funai, o pagamento de indenizações devidas aos índios. Parte deste dinheiro foi pago ao líder Sapucaia, eleito representante da população Mura. O restante do valor foi depositado em uma Caderneta de Poupança e acabou confiscado pelo governo por ocasião das mudanças econômicas da administração Collor.
Se frustrante do ponto de vista monetário, o evento provocado pela pesquisa de petróleo teve efeitos notáveis. Mobilizou mais uma vez os Mura na defesa de seus territórios e lançou os líderes que participaram das negociações em outra esfera política, que articulava a dinâmica da vida local diretamente com Brasília.

Organização social e política

A extensiva presença dos Mura no sistema hidrográfico do rio Madeira confirma um padrão de moradia que dá preferência ao habitar ribeirinho, garantia de subsistência e da mobilidade dos segmentos de grupos. Os depoimentos dos moradores sobre o padrão de moradia no início do século desenham uma ocupação dispersa dos núcleos familiares pela vasta área dos lagos e igarapés. A concentração da população mura em aldeias, tal como se apresenta hoje, foi fato historicamente constituído por intervenção do SPI e data provavelmente das duas primeiras décadas do século XX.
A opção de moradia dos Mura junto aos lagos é um traço cultural tradicional, que também esteve condicionado a injunções históricas. Originalmente, estes exímios pescadores e navegadores do Madeira encontravam farta provisão nos lagos e furos, de onde provinha o abastecimento de peixes e tartarugas. Razões históricas elencadas nos itens anteriores, que envolvem a escravidão e o extermínio, levaram os Mura a buscar refúgio e proteção nos lagos e igarapés distantes das grandes vias de comunicação fluvial, onde a colônia marcava presença cada vez mais ostensiva e opressiva frente aos nativos da região.
Organização social e política do indios mura Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008
Organização social e política do indios mura
Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008.
As aldeias mura contemporâneas caracterizam-se por um conjunto de habitações que não ultrapassa trinta unidades residenciais, dispostas nas terras altas ao longo dos lagos ou dos igarapés principais. A vida útil de uma aldeia mura é relativamente pequena: novos núcleos de povoação do território substituem as aldeias antigas, que são abandonadas até nova ocupação. Ao longo da vida, um indivíduo mura chega a construir mais de dez casas em um mesmo território de ocupação.
O tipo de casa utilizado pelos Mura pouco se difere do padrão das construções ribeirinhas da Amazônia: são casas de piso de terra batida ou assoalho de madeira, paredes de palha ou madeira e cobertura de palha. A cozinha fica deslocada do dormitório, e mantém um fogão a lenha, sempre ativo, potes de água e alguns poucos utensílios. As habitações, em geral, formam conjuntos segmentares que desenham unidades familiares em torno de um núcleo formado pelas mulheres mais velhas da aldeia.
O grau de proximidade e troca entre os moradores e as aldeias mura é determinado por afinidades baseadas no parentesco e na vida política. Os arranjos políticos envolvem na maioria das vezes acordos no aproveitamento dos recursos naturais de área mantida sob a influência das lideranças das aldeias principais. A mobilidade mura, deste modo, não deve ser confundida com o uso desregrado de uma territorialidade genérica e indeterminada.Ao contrário do isolamento, os Mura estão envolvidos em amplas redes de relações multilocais que extrapolam os limites da aldeia e da Terra Indígena. Participam desta rede não apenas os moradores das comunidades mura, como também os parentes que vivem nos municípios da região, tais como Itacoatiara, Borba, Autazes e inclusive Manaus.

Atividades Produtivas

A economia dos Mura, embora orientada para subsistência, é marcada, em diferentes graus, por atividades de trabalho e comércio mais amplas: venda de farinha, participação nos empreendimentos realizados por barcos pesqueiros ou de ecoturismo, bem como extração de madeira e palha para a comercialização nas cidades. Tais atividades ocupam de forma variada a população das aldeias. Diferentes comunidades formam diferentes perfis econômicos, num gradiente que vai daquelas mais voltadas à atividade de extração e comercialização da madeira, àquelas mais voltadas às atividades agrícolas e comercialização das frutas regionais. De modo geral, as aldeias mura forneceram tripulantes para as embarcações ou pescadores para os barcos de pesca comercial e turismo ecológico.
Em sua história recente de contato com a sociedade nacional, os Mura protagonizaram o papel do trabalhador semi-escravo, que vende sua força de trabalho e a terra em troca de assistência à saúde e mercadorias manufaturadas, em uma série de ciclos econômicos que marcaram toda a Amazônia. O tipo de relação de trabalho que se impôs historicamente aos Mura, distante do assistencialismo e da tutela do governo federal e totalmente à mercê da exploração inescrupulosa dos patrões e regatões, passa, no final do século XX, a se reproduzir internamente nos relacionamentos que se dão entre as lideranças e as comunidades mura.
Na divisão do trabalho, os homens caçam pescam e abrem o terreno para as roças novas e para a ampliação das plantações. Crianças e mulheres abastecem de peixe as refeições diárias, que podem ser intercaladas por carne de caça eventualmente obtida pelos homens. Os meninos se iniciam muito cedo nas caçadas na TI Cunha-Sapucaia, acompanhando os pais nas trilhas de caça que são do domínio de cada família.
Índios Mura retratados por George Catlin
Índios Mura retratados por George Catlin
Nas comunidades mais voltadas para as atividades madeireiras, são os homens que penetram na mata em busca da madeira sendo, no entanto, auxiliados pelos jovens e crianças, que auxiliam de maneira geral as demais tarefas. As mulheres são responsáveis por cuidar das roças. Toda a comunidade participa da colheita de castanha-do-pará. Para a comercialização do excedente, seguem a divisão por unidades familiares.
Os Mura combinam atividades de naturezas diversas para garantir seu sustento. A base alimentar é o pescado, encontrado com facilidade nos igarapés e rios da região, que é consumido assado ou cozido com a farinha de mandioca, produzida por cada unidade familiar, em casas de farinha comunitárias (geralmente de propriedade de uma família extensa). Consomem ainda café, açúcar, arroz, macarrão, sal e bolachas, itens adquiridos na cidade. Também são adquiridos medicamentos, roupas, o combustível e ferramentas.
As roças mura, em geral, são replantadas em local diferente do anterior a cada dois ciclos de colheita. Os derivados de mandioca são amplamente consumidos durante o ano todo. As aldeias possuem ao menos um equipamento para a produção da farinha, embora o desejado seja que cada família extensa possua sua própria casa de farinha. Em suas roças, plantam diversos tipos de mandioca, bem como outras raízes e tubérculos que equilibram e completam com nutrientes necessários a sua dieta alimentar.
Os Mura são hábeis pescadores e caçadores. Apreciam os peixes – jaraqui, a traíra, o tucunaré, o matrinxã – e carnes de caça, tais como: anta, veado, porco caititu, macaco prego, guariba, jaboti, queixada, cotia, mutum e aracuã. Tais atividades são praticadas em moldes tradicionais, mas não deixam de fazer uso de tecnologias incorporadas dos regionais. A pesca é feita com flecha, zagaia e anzol. Na caça utilizam cachorros. Apenas alguns moradores possuem espingarda.
A coleta de variados tipos de castanha destaca-se como uma das principais atividades de todas as comunidades. São muito apreciadas e completam sua dieta alimentar, juntamente com as diversas frutas encontradas na região, tais como, açaí, amapá, babaçu, bacaba, buriti, piquiá, tucumã, uixi; bem como as frutas de casa plantadas nas proximidades das habitações, como abacate, abacaxi, acerola, banana, cacau, café, caju, cana, carambola, coco, cupuaçú, goiaba, jaca, jambo, jenipapo, jutaí, laranja, lima, limão, mamão, manga, maracujá, pupunha e melancia.
A atividade extrativa constitui uma prática tradicional dos Mura, que antecede e supera em importância a agricultura. Foi com a coleta e venda da castanha-do-pará que os Mura desenvolveram os mecanismos para lidar com o mercado de consumo. A experiência adquirida é empregada na venda da madeira, produto mais requerido pelo mercado local. Com decadência da era da castanha-do-pará, registrou-se o crescimento das atividades madeireiras e pastoris ao longo de toda a região.
Alegando uma baixa produtividade dos castanhais da região, os Mura vem gradativamente complementando sua oferta de castanha-do-pará ao mercado regional com outros produtos, dentre os quais a madeira é o que obtém aceitação certa e melhor preço. O extrativismo envolve uma série de agentes que participam da vida do grupo social e são elementos importantes para compreendermos a dinâmica destas sociedades. Tais mecanismos consistiam, antes da homologação das Terras Indígenas Mura, na aliança com um ou mais barcos de regatões, com os quais selavam pactos de exclusividade de comércio.

Resumo

Os Muras eram uma tribo aborígine que habitou no período do Brasil Colônia todo território que compreende as bacias hidrográficas dos rios Amazonas, Madeira e Solimões. Sua hostilidade era conhecida pelos brancos, uma vez que evitavam contatos com a civilização. Muras e portugueses se confrontaram em decorrência da invasão colonial, pelo o fato do rio madeira ser o único caminho para os comerciantes portugueses chegarem a Vila Bela, antiga cidade de Mato Grosso. A aldeia Mura não permitia a ultrapassagem do rio levando os negociantes a enormes prejuízos atacando, sobretudo, os barcos que transportavam especiarias.
Os comerciantes lusitanos coagiram o capitão Francisco X. Ribeiro Sampaio, do forte São José do Rio Negro, atual Manaus, para que aniquilasse todas as aldeias ao redor dos rios. A ação foi difícil para os invasores, por serem nômades os Muras logo usaram o conhecimento que tinham da região como tática para derrotá-los, passaram a ocupar diversos pontos de todo o extenso território, surpreendendo as embarcações portuguesas. Em resposta os portugueses requisitaram mais soldados para a luta. Quando se enfrentaram novamente muitos foram mortos embora a perda indígena tenha sido maior. Apesar dos Muras serem donos de muitas técnicas de emboscadas, os portugueses por sua vez possuíam um poder de fogo ainda não conhecido pelos indígenas.
O confronto durou décadas, após mais de cem anos os colonizadores conseguiram exterminar quase a totalidade da aldeia Mura, vários índios incluindo mulheres e crianças foram lançadas às águas do rio vindo todos a morrerem afogados. Contudo a tribo lutou até o fim e hoje são conhecidos como um povo audacioso que combateu até a morte a invasão portuguesa.
Somente em fins do século XVIII que as missões jesuíticas conseguiram “domesticar” a aldeia Mura deixando a passagem dos rios acessível para os mercadores portugueses.
Os remanescentes da tribo Muras ainda habitam as margens do rio Madeira foram aculturados e convivem pacificamente em comunidade sobrevivendo da pesca e da agricultura de subsistência.

Índio mura (à esquerda) e índios aspirando paricá (à direita) fonte : Química Nova Interativa (QNINT)
Índio mura (à esquerda) e índios aspirando paricá (à direita) fonte : Química Nova Interativa (QNINT)