quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"Marina se faz de vítima", diz Aécio Neves



O candidato à Presidência da República pela Coligação Muda Brasil, Aécio Neves, afirmou, nesta segunda-feira (08/09), em Belém (PA), que a candidata do PSB, Marina Silva, tenta se vitimizar quando questionada sobre incoerências entre propostas de governo apresentadas nesta campanha e posições adotadas quando era integrante do PT. Aécio também reagiu à falta de esclarecimentos da presidente Dilma Rousseff sobre as denúncias de corrupção na Petrobras, envolvendo aliados políticos do governo, que Aécio classifica como “Mensalão 2”.
No caso de Marina Silva, Aécio ressaltou que, ao colocar “no mesmo saco as críticas ao PT e ao PSDB, comete um equívoco” e “foge do debate”. Para ele, a sociedade aguarda respostas da candidata do PSB sobre temas como o agronegócio e o cultivo de transgênicos.
“Quero saber qual é o compromisso da Marina com o agronegócio, se vale o de hoje ou vale o de 1999, quando ela apresentou um projeto proibindo o cultivo de transgênicos no país”, disse em entrevista coletiva, ao chegar a Belém. “O Brasil tem o direito de saber em qual candidata eventualmente vai votar. Esse é o jogo político e ela tem que estar preparada para dar essas explicações”, destacou Aécio.

Incoerências
O candidato da Coligação Muda Brasil também citou como exemplos de incoerência por parte de Marina Silva o voto, ainda como parlamentar do PT, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (em 2000) e a oposição dos petistas ao Plano Real (em 1994), que estabilizou a economia e pôs fim à hiperinflação, permitindo a distribuição de renda.
Aécio Neves lembrou a origem de Marina Silva no PT e a sua militância de 20 anos nesse partido. “Nós, do PSDB, queremos saber [quais são os compromissos de Marina Silva], até porque não temos semelhança alguma com o PT. Se alguém tem uma semelhança ou uma identidade com o PT é ela, pelos seus mais de 20 anos de militância no partido, não somos nós”, disse.
Aécio destacou a coerência entre as propostas de sua campanha e sua atuação como governador de Minas durante dois mandatos. Ele reafirmou a crítica às constantes mudanças de opinião por parte de Marina Silva.
“Quero saber com quem ela vai governar e de que forma pretende governar o país. Com que convicções? Porque quem muda de opinião a todo instante, em razão das circunstâncias ou de determinadas pressões, a meu ver, mostra uma fragilidade muito grande pra enfrentar um país com as complexidades, com as dificuldades que vamos enfrentar a partir do ano que vem”, ressaltou.

Ressalva
O candidato a presidente da República ressalvou a conduta de Eduardo Campos, morto em acidente de avião em 13 de agosto. De acordo com ele, Campos era seu amigo e um exemplo de “homem de bem”.
Questionado sobre a referência a seu nome entre os políticos beneficiários de esquema de corrupção na Petrobras, Aécio defendeu Campos. “Convivi com Eduardo durante 30 anos. Isso não combina com ele, que era um homem de bem. Agora, esse discurso da candidata Marina de que é vítima dos ataques do PT e do PSDB é um discurso muito defensivo.” Ele disse que “ninguém está imune a qualquer tipo de crítica”, afirmou. 

Mensalão 2
Aécio voltou a cobrar da presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, explicações sobre as denúncias de corrupção na Petrobras. “A verdade é que o governo do PT enlameou a nossa principal empresa. E não adianta o governo dizer que não sabia. É preciso que as respostas sejam diretas, objetivas e que essas investigações possam ser aprofundadas. Quem tem responsabilidades tem que ser punido exemplarmente.”
Para ele, Dilma foi beneficiária do esquema do ponto de vista político. “Não acredito que a presidente da República tenha recebido recursos desse esquema. Mas, do ponto de vista político, ela foi beneficiária sim e tinha a obrigação de saber aquilo que acontece no seu entorno. Administrar é tomar decisão, coibir malfeitos, apresentar resultados positivos, tudo o que esse governo não vem fazendo.”
O candidato reafirmou que o governo do PT acabou e que o esquema de corrupção descrito pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa representa o “Mensalão 2”. 
“É só uma questão de tempo. Estamos aí frente ao Mensalão 2. A principal empresa pública brasileira submetida a interesse de grupos. Para quê? Para manter o PT no poder.”
 Aécio destacou que o objetivo de sua candidatura é começar uma nova fase no país. “[Queremos] encerrar esse ciclo perverso de governo do PT, que tão mal vem fazendo ao país, para iniciarmos um novo ciclo de seriedade e respeitabilidade na gestão do recurso público; um ciclo onde possamos colocar, ao mesmo tempo, a ética junto com a eficiência, com a competência”, afirmou.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O que aconteceu na inauguração do Teatro Amazonas

Sempre que leio essa história fico pensando como eramos mesquinhos, ou talvez ainda sejamos, porém negamos. Essa história aqui está relatada por um dos maiores estudiosos do Teatro Amazonas o Rogel Samuel.
Segundo o que nos conta a história, no dia 31 de dezembro de 1896 o Teatro Amazonas foi inaugurado, e para essa grande festa a ópera apresentada era a ópera italiana “La Gioconda”, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes.
Carvalho Franco (a esquerda) nasceu em Campinas, em 1858/59 e faleceu em Manaus em 1927, onde se estabeleceu. Está enterrado no cemitério de São João Batista. __ Amilcare Ponchielli (a direita) nasceu em 31 de Agosto de 1834 e faleceu em 17 de Janeiro de 1886. Foi um compositor italiano de óperas.
Carvalho Franco (a esquerda) nasceu em Campinas, em 1858/59 e faleceu em Manaus em 1927, onde se estabeleceu. Está enterrado no cemitério de São João Batista.
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Amilcare Ponchielli (a direita) nasceu em 31 de Agosto de 1834 e faleceu em 17 de Janeiro de 1886. Foi um compositor italiano de óperas.
“La Gioconda” era uma novidade. Em 1896. Sua estréia mundial fora em 1876, com grande sucesso. A única das composições de Ponchielli (1834-1886) a ter sucesso e a manter-se no repertório dos teatros até hoje. Estreou no Teatro alla Scala de Milão, em 08 de abril de 1876 e Ponchielli revisou a obra pelo menos três vezes até o final da vida.
O Teatro alla Scala (ou La Scala), em Milão, Itália, é uma das mais famosas casas de ópera do mundo.
Teatro Alla Scala Visto por Fora / Foto: Divulgação / Expo 2015 Teatro Alla Scala Vistro por Dentro / Foto: Divulgação / EyeStylist Teatro Amazonas Visto por Fora / Foto: Divulgação/ Governo do Amazonas Teatro Amazonas Visto por Dentro / Foto: Emanuel Pires Corrêa
Teatro Alla Scala Visto por Fora / Foto: Divulgação / Expo 2015
Teatro Alla Scala Vistro por Dentro / Foto: Divulgação / EyeStylist
Teatro Amazonas Visto por Fora / Foto: Divulgação/ Governo do Amazonas
Teatro Amazonas Visto por Dentro / Foto: Emanuel Pires Corrêa
“La Gioconda” está na transição entre o romantismo e o realismo, reunindo elementos dos dois. Estilo de “grand-opera” francesa, carregada de melodrama, a ambientação exótica, com um balé no meio do espetáculo – a conhecida “Dança das Horas”, imortalizada por Walt Disney.
A ópera revela grandiosidade, cenários luxuosos, efeitos de cena, como o incêndio do segundo ato, grandes número de coro, orquestração densa. Exige um elenco de 12 cantores, seis dos quais podem ser considerados principais, com pelo menos uma grande ária para cada um deles.
Mas “La Gioconda” é precursora da escola realista da ópera italiana, com o vilão Barnaba, teatral, mais declamado do que cantado, e a violenta cena final, quando a protagonista comete suicídio num ato de extremo desespero.
O libreto é de Arrigo Boito, um dos artistas que fizeram a renovação do gênero. Mas Boito não acreditou no sucesso da ópera, e preferiu assinar com um anagrama, Tobia Gorrio.
O soprano que interpretar Gioconda tem as partes mais difíceis do espetáculo, cheio de recursos emotivos, alternando sentimentos de ternura, amor, ódio e desespero. O soprano canta exaustivamente nos três primeiros atos, antes de enfrentar o fim, no mais extremo esforço cênico e vocal, quando está dentro de um palácio em ruínas e prefere suicidar-se a ser morta.
É uma ópera cara, difícil.
A Gioconda de Manaus era Líbia Drog, soprano dramática. Ela era uma italiana belíssima, cotada na Itália, na Espanha e em São Petesburgo. Mas ficou famosa porque no Metropólitan Opera House, em novembro de 1894, na ópera Guillermo Tell, esqueceu o texto da ária de Matilde – Selva opaca – pondo em perigo toda a função.
Mas em Manaus ela teve uma atuação impecável.
A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar, pois o escritor aproveitou para fumar.
A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio). Mas quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração, pois Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite. As esmeraldas e brilhantes iluminaram a entrada.
E assim foram chegando os convidados, que era elite do Norte do Brasil. Um dos últimos a chegar foi o Governador Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, aplaudido pelo povo que estava na rua, desprezado pelos convidados de dentro. Eduardo Ribeiro, como sempre, veio com uniforme militar, acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar ninguém, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote. Os dois soldados não entraram, ficaram de guarda, na porta.
Ex-governadores do Amazonas: Fileto Pires e Eduardo Ribeiro
Ex-governadores do Amazonas: Fileto Pires e Eduardo Ribeiro
O Teatro ainda não estava totalmente pronto. No “Salão Nobre”, em taças de cristal, servia-se o espumante La Grand Dame Veuve Clicquo. E se fazia política, conspirava-se. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, conspirava-se contra Eduardo Ribeiro, que se escondera na penumbra. Em sussurros, no pé do ouvido, algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris…”
- Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir, disse o outro.
No início do espetáculo falou o Governador Fileto Pires Ferreira, do alto do seu camarote central. Grande orador, inflamado, de improviso, inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
- Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados.
E mais tarde, no meio da ópera, na “Dança das horas”, ouviu-se alguém gritar:
– É preciso eliminar o negro! – e uma gargalhada geral.
Eduardo Ribeiro naquele momento se retirou e nunca mais voltou ao teatro.
O Teatro Amazonas surgiu, no papel, em 1881, mas só no final de 1884, foram iniciadas as obras de alicerce da edificação. Por conta de desentendimentos em relação aos contratos de construção, a obra ficou paralisada e somente em 31 de dezembro de 1896, o Teatro Amazonas foi inaugurado.
O Teatro Amazonas surgiu, no papel, em 1881, mas só no final de 1884, foram iniciadas as obras de alicerce da edificação. Por conta de desentendimentos em relação aos contratos de construção, a obra ficou paralisada e somente em 31 de dezembro de 1896, o Teatro Amazonas foi inaugurado.

"Marina não consegue superar suas enormes contradições", diz Aécio



O candidato da Coligação Muda Brasil à Presidência da República, Aécio Neves, afirmou, nesta terça-feira (09/09), em Goiânia (GO), que a candidata do PSB, Marina Silva, não consegue superar suas “enormes contradições”, fato que os eleitores brasileiros já começam a perceber. Aécio criticou as incoerências entre as atuais propostas de governo da candidata e as posições defendidas por ela quando era integrante do PT, e cobrou da presidente Dilma Rousseff um posicionamento claro acerca de irregularidades na Petrobras.
“Acho que a Marina, por mais que tenha boas intenções – e todos temos boas intenções –, não consegue superar as suas enormes contradições, e as pessoas estão começando a perceber. Qual é a Marina que vai disputar as eleições? É a que hoje defende a política econômica do PSDB? Ou é a Marina que combateu o Plano Real? É a Marina que hoje abre os braços para o agronegócio, ou é a Marina que, em 1999, apresentou um projeto proibindo o cultivo de transgênicos no país? É importante que as pessoas conheçam qual é a que está valendo”, afirmou.
Aécio acrescentou que Marina não deve se incomodar com as críticas que recebe do PT, agora que é vítima do mesmo “terrorismo eleitoral” a que o Partido dos Trabalhadores submete os seus oponentes.
“Esse terrorismo do PT existe desde sempre. Desde que ela [Marina] era parte importante do PT, desde que era ministra de Estado, nós sofríamos com essa leviandade em véspera de eleição. Ela certamente conhece muito bem como o PT age, até porque por mais de 20 anos esteve ali, e sempre fomos oposição ao aparelhamento da máquina pública, a esse baixo compromisso com valores, com a retidão, com a ética na vida pública”, disse.
O candidato da Coligação Muda Brasil lembrou ainda a luta iniciada pelo PSDB no Congresso Nacional para estabelecer o Plano Real e aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que hoje são avanços na vida dos brasileiros. “E as duas candidatas [Dilma e Marina] estavam do mesmo lado, contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, e absolutamente omissas quando vieram os escândalos do Mensalão.”

Petrobras
Em entrevista coletiva, Aécio também cobrou da presidente da República Dilma Rousseff um posicionamento claro acerca das denúncias de corrupção e irregularidades na Petrobras, reforçadas pelo depoimento de um dos ex-diretores da empresa, Paulo Roberto da Costa.
“Não dá para dizer eternamente que não sabia. O governante tem o dever, sim, de saber o que acontece no seu entorno. E se não teve ali benefícios pecuniários, que eu não acredito que a presidente tenha tido, ela teve o benefício político de uma base de sustentação formada, construída e forjada a partir dos desvios de dinheiro público. Isso é muito grave, isso já deu, o Brasil está cansado disso”, destacou.
O candidato à Presidência ressaltou que desde o ano passado, quando liderou no Congresso um movimento pela instalação de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar negócios nebulosos da Petrobras, o governo federal acusou a oposição de tentar “denegrir e manchar a imagem da principal empresa pública brasileira”.
“Hoje, estamos vendo que um grupo político se apropriou da Petrobras para fazer negócios, e negócios que tinham como consequência a manutenção do PT no governo. Continuarei fazendo aquilo que sempre fiz, denunciando as irregularidades e apresentando uma proposta de devolver a Petrobras aos brasileiros. Queremos uma administração fora dessa lógica política perversa que o PT estabeleceu. A nossa candidatura apresenta ao Brasil uma proposta nova, porque o que é novo de verdade nessa campanha é o que estamos propondo”, salientou.

Doações de campanha
Sobre doações de campanha, Aécio afirmou que é importante fazer cumprir a lei. O candidato da Coligação Muda Brasil destacou que sua campanha recebe as doações conforme determinado pela legislação. “Tenho uma postura diametralmente oposta àquela do PT. Se alguém, seja próximo a nós, filiado ou não, que de qualquer forma conviva conosco, cometeu irregularidade, tem que ser punido exemplarmente. Eu não transformarei, como fez o PT, eventuais culpados em heróis nacionais.”
Ele completou dizendo que mantém suas propostas e convicções. “Eu acredito na meritocracia, acredito no Estado para resultados, acredito na melhoria dos nossos indicadores sociais. Tenho programas para a superação da pobreza, e não apenas para sua permanente administração, como tem o PT. Não há dúvida, e cada dia isso vai ficar mais claro, que temos uma alternativa de mudança consistente.”

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre os Xerimbabos e a escravidão no Amazonas.

Quem nunca soube de crianças interioranas trazidas para estudar na capital, mas que acabavam por servir de empregadas? Ou ouviu histórias de mães que doam seus filhos a “padrinhos” na esperança de oferecer um “futuro” melhor? (ou vendê-los mesmo, sem floreios, para “arrumar uns trocados”) Pior sorte, talvez, vivenciam aquelas crianças exploradas nas fazendas, nas embarcações ou vendidas para a prostituição e para o mercado sexual, como tantas vezes tem sido noticiado pela imprensa local. Como explicar tantos desrespeitos aos direitos das crianças? Sem dúvida, algumas explicações podem ser encontradas no nosso passado histórico; e, infelizmente, naquele mais doloroso: dos tempos da escravidão.
Sobre os Xerimbabos e a escravidão no Amazonas.
Sobre os Xerimbabos e a escravidão no Amazonas.
No século XIX, circulavam pelos rios centenas de igarités amontoadas de mercadorias que alimentavam o comércio conhecido como regatão. Vendas e trocas eram estabelecidas entre os mercadores e as comunidades ribeirinhas, quilombolas, amocambados, populações indígenas e comerciantes estrangeiros. Em meio a tais atividades, circulava outro tipo de comércio em pleno vigor, apesar de ilegal: compra e sequestro de pessoas, muitas delas crianças. No Japurá, circulavam anualmente trinta ou quarenta grandes canoas tripuladas por comerciantes portugueses e brasileiros que seguiam mata adentro, por vezes atravessando as fronteiras e atingindo a Colômbia, para negociar com tuxauas e chefes de tribos indígenas aquilo que já havia sido negociado (e pago) um ano antes.
Eram carregamentos de crianças, meninos robustos e meninas bonitas, que seriam vendidas nas praças de Manaus, de Belém ou mesmo de outras províncias do Império. Aguardente, tabaco, espingardas, bijuterias, etc. serviam para levar à cabo as negociações de compra e venda. Proporcionalmente, dois machados equivaleriam a um menino robusto. As meninas bonitas tinham reconhecido valor porque poderiam servir de concubinas, amantes de seus compradores. Cada uma das igarités poderia carregar de dez a vinte índios; eram conduzidos por cordas ou, da maneira mais comum à época, presos com ferros ao pescoço. Uma vez embarcados, pagava-se com antecedência o valor estimado do carregamento do ano seguinte. Mães e filhos logo seriam apartados. Filhos eram vendidos em um lugar, mães em outro.
Quando não eram comprados, eram sequestrados. Isto feito, tinham seus nomes trocados e com o passar do tempo muitos sequer recordavam de seus antigos nomes e parentes. Isso tornava difícil o rastreamento das famílias das crianças vendidas e inviabilizava a atuação da polícia, que se via incapaz de investigar os responsáveis por fazer circular as mercadorias. Para piorar, sujeitos de diferentes origens étnicas e sociais participavam do comércio. Brancos – pobres ou abastados-, negros – livres ou escravizados -, e indígenas destribalizados também atuavam como mercadores. Menos violentos eram os que buscavam “seduzir” os menores: promessas de enriquecimento, de emprego, do aprendizado da leitura e da escrita, de casamento, de educação, de instrução, de passeios, enfim, eram muitos os meios de ludibriar as crianças.
Já nas cidades, os pequenos eram vendidos em plena luz do dia. Das praças seriam levados por seus compradores. Muitos seriam utilizados como criados, serventes, aplicados aos serviços domésticos. Lavar roupas, cuidar de arrumar casas, cozinhar, costurar. Eram chamados de “xerimbabos” (nome de origem tupi para animais de criação) ou “fâmulas”. Também se viam ocupados em fazer serviços de compras e vendas, e por isso vagavam pelas ruas da capital. Perambulavam em meio a outros menores. Encontravam-se entre os fugidos do Educandário dos Artífices e órfãos legalmente tutelados. Tentavam a sorte em jogos de azar com crianças negras escravizadas. Ou saíam correndo entre os bandos de “pequenos negrinhos alegres e despreocupados” de que nos fala Elizabeth Agassiz. Outros seriam levados para os serviços das fazendas nas margens rio Amazonas. Muitos eram empregados na extenuante atividade de extração da goma elástica e na fabricação da borracha, especialmente no rio Purus.
O que diziam as autoridades sobre isso? O ministro da justiça do império, o sr. José Carlos Pereira de Almeida Torres, falava abertamente sobre o tráfico de crianças, segundo ele conservadas “em perfeita escravidão, sob rigoroso trato”, denunciando que muitas eram vendidas para outras províncias ou mesmo para a Corte no Rio de Janeiro. Outro que nos dá informações é o viajante e naturalista inglês Henry Bates que chamava atenção para a diversidade étnica daqueles que haviam sido “vendidos ainda criança pelos caciques”. Descrevia um quadro dramático com alta mortalidade infantil e de intenso comércio de crianças na região de Ega (atual Tefé), chegando a ajuizar ser essa localidade, à época, um dos mais importantes mercados de escravos da região. Acusava ainda as autoridades brasileiras de cumplicidade no tráfico, pois sem a tolerância com o comércio de menores “seria impossível obter criados”.
Delegados, juízes, políticos, médicos eram alvo de denúncias nos jornais do Amazonas. Acusados de participar dos “negócios de menores”. Assim, a situação das crianças era de muita vulnerabilidade. Menores pobres ou recrutados para os serviços na marinha geralmente passavam pelas mãos de autoridades provinciais e, quase sempre, ficavam sob a responsabilidade do Juízo de Órfãos. Era frequente ver crianças pobres sendo levadas pelo poder público, tanto da capital quanto em localidades do interior. Nas comunidades mais distantes, as autoridades estavam despreparadas para enviar crianças para Manaus, ocasionando enganos nos destinos dados aos menores recolhidos e abrindo brechas para ações irregulares, sequestro, apossamentos ilícitos, “graves escândalos”. Em 1882, o próprio presidente da província, o sr. José Paranaguá, foi acusado de mandar prender os meninos desertores da Companhia de Aprendizes Artífices e outros menores desvalidos classificados como “vagamundos”. Retrucando a denúncia, José Paranaguá não economizou: “chamam isso de caçada, quando não há aqui casa que não tenha o seu curumim (menino tapuio) apanhado nos matos para servir de criado”.
Muitas dessas crianças eram negociadas, distribuídas e redistribuídas, conforme as conjunturas políticas locais. Amigos do “potentado no lugar” eram presenteados com crianças, com a disponibilização de órfãos; os inimigos eram punidos, prejudicados com a retirada das crianças que estavam sob seu poder – mesmo quando havia legalidade na tutela. As crianças enfrentavam diariamente a instabilidade, repetidas vezes desenraizamento e o medo constante de perder referenciais e abrigo, perder quaisquer estruturas que se assemelhassem ao ambiente familiar.
O uso de crianças como serventes, criados, “em perfeita escravidão”, era absolutamente comum, prática corrente, como atestam vários editais do Juízo de Órfãos publicados na imprensa.  Além de expor a ilegalidade da situação de menores empregados nas casas da capital, os juízes lembravam aos “tutores” outra irregularidade: “deixar que seus tutelados vaguem pelas ruas desta cidade e consintam que eles se ocupem em fazer compras e vendas, como consta que assim praticam”. Em maio de 1889, denunciava-se o “abuso da lei” e os enganos aos quais estavam sujeitos indígenas como Vitalina, que no rio Uaupés foi recrutada para ser educada, mas vivia em “estado infeliz”. O denunciante alertava aos leitores que a escravidão para os índios não estava acabada “como comprovam mil fatos que cada qual pode se ver nos rios Negro, Purus e Solimões”. Insistia que os abusos verificados quanto ao costume de escravizar crianças, se não fossem punidos, produziriam “frutos venenosos corrompendo a sociedade”. E quanto à educação das meninas, indicava a presença de desigualdades raciais: “as habitantes das selvas tem o mesmo direito em face da lei que tem as filhas dos brancos”.
Ao lado das denúncias de “perfeita escravidão” são recorrentes na imprensa acusações de castigos e maus tratos contra as crianças. Em setembro de 1886, o noticiário do Jornal do Amazonas informava o “bárbaro castigo” sofrido pela menor Thereza Alves Ferreira cujo corpo estava “todo contundido e manchado de longas equimoses”. Em fevereiro de 1888, o Jornal do Amazonas rebatia as acusações contra um seu leitor, classificando como “fantasias” o “depoimento de uns meninos suspeitos” a respeito das acusações de “castigos e sevícias” cometidos contra a menor Adélia. Em março de 1886, o noticiário do Jornal do Amazonas explicava que o “pequeno índio” que trabalhava na casa de Thomaz Sympson não havia fugido por ser maltratado, mas por “sua índole nômade, como é a de todos os índios”. E retrucava contra seus acusadores: “fugiu como tem fugido outros da casa do sr. dr. Aprígio Martins de Menezes (…) sua senhoria julga que são maltratados os índios que fogem da casa de outros talvez porque em sua casa o tem isso os que dela tem fugido e nela tem morrido…”
A situação parece ter piorado depois de 1850, quando o tráfico de africanos para o Brasil foi definitivamente extinto. No ano de 1854, em plena Assembleia Geral do Império, os deputados discutiam um projeto de lei para conter o deslocamento de escravos comprados das províncias do norte para abastecer as demandas, cada vez maiores, do sudeste cafeeiro. O deputado João Mauricio Wanderley, parlamentar pela Bahia e promotor do projeto, justificava sua aprovação, entre outros motivos, pelo proposito de coibir “essa nova traficância de carne humana” em que se podia verificar “crianças arrancadas das mães, maridos separados das mulheres, os pais dos filhos”. E acrescentava: “não é tudo, senhores, já como consequência vai aparecendo no norte uma outra especulação, que é a de reduzir à escravidão pessoas livres…” Instado a argumentar sobre a moralidade de seu projeto de lei, o deputado lembrou a situação das crianças das províncias do norte, nas quais meninos de cor parda ou preta eram vendidos, vitimas dos que “empregam violência para roubar crianças e vende-las”.
Para desespero dos presidentes da província os crimes de escravização de pessoas livres persistiram durante todo o século XIX (e mesmo no XX) trazendo problemas para a diplomacia brasileira, além de piorar a imagem do país no estrangeiro que carregava o título nada lisonjeiro de uma das últimas nações escravistas do mundo. Não bastasse a escravidão negra, havia ainda força da “escravidão vermelha” no Amazonas.
O que tantas histórias nos revelam? Com certeza, as trajetórias de crianças negras e indígenas escravizadas ilegalmente ajudam a revelar a profunda vulnerabilidade sofrida por famílias não brancas na província do Amazonas. Fazem-nos lembrar de um passado que ainda persiste, no qual essas crianças vivenciaram  os costumes e práticas escravistas que constrangiam o exercício de qualquer noção que elas tivessem de liberdade. Buscar compreender as histórias do nosso presente através das experiências dessas crianças do passado nos revela ainda uma questão avassaladora: escravidão até quando?

Leia a nota oficial sobre o fracasso da política econômica do Governo Dilma



A decisão da agência de classificação de risco Moody's Investors Service de rebaixar a perspectiva do rating do Brasil para negativa confirma a infeliz deterioração do quadro econômico do nosso país. Mostra que as conquistas econômicas e sociais do Brasil estão em risco por decisões equivocadas da política econômica, com exagerada flexibilização fiscal, que abalaram de maneira significativa a confiança dos investidores. Para reverter esse quadro e devolver o Brasil a um caminho virtuoso, é preciso um governo comprometido com a adoção de uma política econômica transparente, com solidez fiscal e decisivo combate à inflação.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

História do bairro – Nossa Senhora das Graças

O bairro Nossa Senhora das Graças surgiu há 72 anos. Foi fundado em 27 de novembro de 1940 e era apenas um beco onde morava o senhor Alfredo Coelho Macedo. Ele ficou tão conhecido pelos outros moradores que ali se instalaram, que o beco foi chamado de Beco do Macedo.
bairro Nossa Senhora das Graças em Manaus
bairro Nossa Senhora das Graças em Manaus
O beco estava localizado próximo a um hipódromo, que mais tarde foi transformado em estádio de futebol, o Parque Amazonense. A área ainda existe, mas serve para a prática esportiva e atividades sociais da comunidade.
O Antigo Estádio Parque Amazonense
O Antigo Estádio Parque Amazonense
O Estádio Parque Amazonense
Foi muito utilizado pela população de Manaus e era localizado no Beco do Macedo, ficando numa vasta área do bairro da Vila Municipal, hoje Adrianópolis, com entrada principal pela rua Belém. Mais tarde parte dessa área foi ocupada e transformada em bairro. O terreno pertenceu a um cidadão português e depois foi doado à Maçonaria, que voltou a por em funcionamento um hipódromo e um campo de futebol, onde ocorriam os grandes clássicos do futebol Amazonense, tais como : Rio Negro e Nacional, Rodoviário e Américo, Nacional e Fast Clube e Auto Sporte e Olímpico Clube.
Antigamente
Na década de 1970, os moradores do Beco do Macedo receberam um padre que fez muito pela comunidade, o italiano César La Rocca, que ainda mora no bairro. Com a ajuda do povo e do poder público, ele construiu uma capela para a comunidade exercer a prática do catolicismo.
Com a adoção de Nossa Senhora das Graças como a padroeira do locaal, o nome do bairro foi modificado para o nome da santa. Apesar dessas mudanças terem ocorridas entre as décadas de 1970 e 1980, muita gente ainda conhece o bairro como Beco do Macedo. Dentro do bairro, está o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), além do histórico cemitério São João Batista e do reservatório do Mocó, que no início do século passado, abasteceu a cidade com água potável.

Aécio cobra de Dilma explicações sobre denúncias envolvendo a Petrobras

O candidato da Coligação Muda Brasil à Presidência da República, Aécio Neves, cobrou, nesta segunda-feira (08/09), explicações da candidata do PT, presidente Dilma Rousseff, à sociedade sobre as denúncias de corrupção que envolvem a Petrobras, a maior empresa do país. Segundo ele, Dilma tem “responsabilidade e satisfação” a dar à população brasileira. Aécio fez a cobrança publicamente em Marabá, no Pará. 
“As denúncias são absolutamente graves, e é preciso que haja por parte da presidente da República uma posição mais clara em relação a tudo isso. Estamos falando de uma área sobre a qual ela manteve o poder absoluto nos últimos doze anos. Eu não faço acusação pessoal de ela ter se beneficiado desses recursos, mas pelo menos o benefício político foi dado ao seu governo, por isso ela tem responsabilidade e satisfação a dar à população brasileira”, afirmou. 
A revista Veja publicou reportagem de capa, no último final de semana, com detalhes do depoimento de Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobras, por meio de acordo de delação premiada. A matéria mostra o envolvimento de ex-governadores, senadores e deputados federais ligados à base aliada do governo federal.

Investigações 
Em entrevista coletiva, Aécio defendeu o aprofundamento das investigações e a “punição exemplar” dos envolvidos.  O candidato lembrou ainda que há apurações policiais indicando a existência de uma organização criminosa inserida na estatal. 
“O fato concreto, e quem diz isso é a Polícia Federal, é que existe uma organização criminosa atuando no seio da maior empresa pública brasileira. E segundo denúncias de um diretor dos mais prestigiados pelo atual governo, a base de sustentação ou parte de sustentação desse governo vem sendo alimentada por recursos ilícitos, recursos da corrupção. É preciso que essas informações sejam aprofundadas e haja punição exemplar daqueles que permitiram que isso ocorresse”, destacou.

CPMI da Petrobras
O candidato da Coligação Muda Brasil ressaltou que liderou no Congresso Nacional a negociação e articulação para a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar transações nebulosas na Petrobras, iniciativa que foi rechaçada pela petista Dilma Rousseff.
“A atual presidente da República dizia que estávamos atentando contra a imagem da maior empresa pública brasileira. Na verdade, quem levou a maior empresa pública brasileira das páginas da economia para as páginas policiais foi esse governo, que permitiu que o Estado fosse dividido em pedaços e esses pedaços distribuídos para aqueles que lhe dão apoio”, completou.